A
gênesis de um alfabetizado
O tempo passa, e a nossa
história de vida vai sendo registrada em nossas lembranças, como, quando
escrevemos em uma folha branca, em muitos momentos corre solta e sem um roteiro
para nos guiar, e por outras vezes, são outros quem traçam esse caminho para nós,
hoje quando refaço os passos consigo entender o quão importante foram aqueles
que me guiaram no registro daquilo que eu não tinha consciência e que me
presentearam com um tesouro que só agora conheço o valor... O conhecimento é
assim, distribuído gratuitamente e só valorizado por quem o adquiri, tempos
depois, ao menos, pelo que me recordo, foi assim comigo.
Primeiro com a mágica professora
Inês, que munida de uma simples cartilha me apresentou as silabas e um pouco
mais tarde me confidenciou o segredo das inúmeras possibilidades de suas
combinações, e assim de uma hora para outra, me tornei leitor e escritor, com
um mundo todo novo e cheio de novidades para contar a minha mãe a cada tarde
que regressava a minha casa. E lá se foi a 1º, 2º e a 3º série do ensino
fundamental. Foi então que em uma manhã do ano de 1987, fui promovido de
aprendiz de magico das silabas para mini cidadão do mundo real.
Chamava-se José, aquele imenso homem de barba
fechada e de cor escura, que com sua imensa barriga e com sua voz grave fazia
tremer até o mais traquino de meus colegas de sala, tinha inúmeras regras,
presava pela disciplina e pelo respeito acima de qualquer coisa, nos cobrava e
sobrecarregava de tarefas e nos penitenciava por seu não cumprimento, porém,
quando ler era o assunto, se tornava eloquente, chegando a ter um brilho nos
olhos. Era de origem nordestina, e sempre nos relatava as mazelas da vida,
sempre nos contava das dificuldades do povo nordestino quando aqui chegavam por
falta da escrita e da leitura, me mostrou que a magia das silabas tinha um
oposto chamado analfabetismo e um sintoma chamado desigualdade. Foi ele com sua
postura rígida e sisuda que atuou de forma preventiva sobre minha história, que
até aquele momento não tinha roteiro nem tão pouco um direcionamento consciente
de minha parte, foram muitas tomadas de leitura a frente da sala, muitos
gaguejar, muitos sermões e muitas palavras de encorajamento. Foi então, que,
novamente, sem um prazo ou prévio aviso, fui mais uma vez promovido, agora de
mini cidadão do mundo real para cidadão imune a chaga do analfabetismo, leitor,
escritor e orador, a partir dai não mais leria só para mim, mas para os meus e
para o mundo.
Leitor, escritor e orador
por obrigação, era quase como uma função a ser cumprida, ainda faltava algo, foi
então que ainda sem um roteiro de minha autoria, nas férias de 1989, minha mãe
em uma viagem de ônibus de três dias para visitar meus avós no estado do Piauí,
me mostrou que eu poderia usar a minha leitura como uma forma de lazer me
presenteando com inúmeras historias em quadrinhos, que se tornaram a porta de
entrada em minha vida para contos, ficção cientifica, romances policiais,
títulos literários, artigos científicos, etc.
Agora sim! Leitor, escritor
e orador por prazer, pronto para ser o autor do meu roteiro de vida.
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